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Agosto

Viagens, percursos, relevo, equipamento e cidades descobertas correndo.

23 min · 4.448 palavras

Viagens

Graças à corrida, conheci lugares muito diferentes. Entre os mais especiais, corri em Lhasa — a cerca de 3.650 m de altitude, veja bem; foi difícil! —, em Paris, perto daquela torre, à beira do oceano no Marrocos e na Marrakech medieval, pelas montanhas de Chamonix, pela Cidade de Pedra de Zanzibar, por Bukhara e Astana e nas encostas do Kilimanjaro.

Onde quer que eu vá, tento deixar um percurso registrado no Nike Run Club.

Como gosto de correr de manhã, acordo cedo e saio para explorar. Quando chega o café da manhã, já conheci alguma coisa.

Comecei a correr, em boa parte, para viajar melhor. Não é minha principal motivação, mas foi uma das primeiras e continua muito importante.

Tenho que admitir: viajar é minha paixão. Ao escolher um hotel numa cidade nova, vejo onde fica e a quais lugares interessantes consigo chegar correndo. Isso faz parte do planejamento. Mesmo quando não posso escolher o hotel, pesquiso o que fica ao alcance dos pés, o que há de interessante por perto, e tento aproveitar.

O turista que não corre fica limitado a poucos lugares. Move-se devagar, carrega um monte de coisas desnecessárias e visita poucas atrações. Entre o ponto A e o ponto B, a paisagem muda lentamente, e dá tempo de se entediar.

Acho que, em qualquer viagem com pernoite, vale levar tênis, documento de identidade e dinheiro. O resto dá para comprar lá.

A resistência dos nossos antepassados

Vou começar com um fato agradável para todos nós: o ser humano é uma das criaturas mais resistentes do planeta. Temos mais resistência do que o guepardo, o urso, o búfalo, o gavião ou o crocodilo. Sim, só por termos nascido humanos, você e eu já temos um excelente potencial.

O nicho ocupado por nossos antepassados caçadores dependia da capacidade de perseguir uma presa durante muito tempo. Especialmente depois de feri-la, podiam continuar a perseguição até esgotá-la. Persistência e resistência eram ferramentas de algumas das estratégias de caça mais antigas e bem-sucedidas.

Parte disso vem da economia de nossos movimentos: andamos sobre duas pernas, não quatro. Parte vem de nosso sistema avançado de refrigeração, a capacidade de suar. Também temos um volume pulmonar relativamente grande, que ajuda nas longas distâncias. A própria natureza preparou o ser humano para correr.

Mas não nascemos com toda essa resistência pronta; nascemos com o potencial. Ao contrário dos animais, precisamos treinar para alcançar grandes resultados. Sem treino, perdemos essa habilidade, mas podemos recuperá-la.

Fiquei muito impressionado com a parte de Sapiens: uma breve história da humanidade, de Yuval Noah Harari, sobre a pré-história, antes da agricultura e da produção de alimentos. O autor demonstra um carinho especial por aquela época, e me contagiou.

Segundo Harari, em alguns aspectos os humanos pré-históricos eram mais desenvolvidos e mais inteligentes do que nós. Guardavam na cabeça mapas extremamente detalhados de grandes territórios de caça. Conheciam plantas e cogumelos, sabiam utilizá-los, entendiam os hábitos dos animais e improvisavam. Distinguiam inúmeros sons e cheiros. Por isso, seus cérebros eram maiores, e a capacidade de pensamento abstrato, superior. Estavam profundamente integrados à vida daquele território e se sentiam à vontade nele em diferentes estações. As escavações indicam uma dieta variada, com muitos animais e plantas. Quantas plantas comestíveis você reconheceria num bosque depois das aulas de biologia da escola? Poucas. Eles reconheciam muitas, e esse conhecimento tinha aplicação imediata.

Os antigos caçadores viviam bastante. Se sobrevivessem à infância e aos acidentes de caça, podiam chegar a uma idade avançada, comparável à velhice de hoje. E tinham um desenvolvimento físico equilibrado: eram rápidos, flexíveis, ágeis, resistentes e fortes. Imagine essa sociedade de pessoas fortes e inteligentes. A seleção natural as moldava assim, e nós carregamos seus genes.

Vivemos desse jeito por centenas de milhares de anos. Nosso organismo foi moldado pela evolução para essa vida. O que veio depois — domesticação, agricultura, Revolução Industrial e sociedade moderna — aconteceu muito depressa, e perdemos parte das habilidades naturais. O olfato, por exemplo, já não é tão importante no cotidiano. Como e por que isso aconteceu é outra grande conversa. Leia Harari; vamos voltar à corrida.

Gosto muito desse ideal imaginado do passado: uma pessoa rápida, flexível, forte e resistente. Que maravilha! Também quero ser assim. Quando corro, faço ioga ou levanto peso, penso que estou me aproximando um pouco da atividade física natural que formou nossos antepassados. Eles se movimentavam muito, se cansavam e comiam com vontade. Ótimo, eu também vou fazer isso.

Além disso, treinar regularmente amplia muito o espaço que você conhece ao redor de casa. Descobre trilhas, passagens e detalhes do relevo que antes nem percebia. Sabe onde a rua sobe durante um bom trecho quase sem parecer, onde se formam poças depois da chuva, onde florescem arbustos perfumados ou amadurecem maçãs. Um mapa mais detalhado de um território maior se forma na cabeça. Correr aproxima a gente daquele estado natural e equilibrado de quem vive plenamente.

O relevo dos treinos e da prova

Os percursos mais confortáveis são planos, com poucas curvas ou curvas suaves, sem subidas nem descidas. Dá para manter uma velocidade constante e prestar atenção só em si mesmo. Pistas de atletismo oferecem esse tipo de percurso artificial.

Mas, numa prova longa, uma maratona ou meia maratona, o relevo provavelmente será mais interessante e trará novas sensações.

Correr em subida é difícil de verdade. O coração acelera muito mais e os músculos cansam de repente. Se você não treinou isso especificamente, a velocidade cai e pode bater um começo de pânico.

Um amigo meu gostava de treinar entre Ouchy e Vidy, acompanhando a margem do lago. O percurso tinha poucas variações de altura, suaves. Apesar do bom volume, ele não estava preparado para as ondulações da Maratona de Colmar, e o resultado o decepcionou. Entre a cidade e os vinhedos, as subidas se fazem sentir ao longo da distância. São cerca de 210 m de ganho de elevação. Quem corre trilha pode rir, mas, para quem só conhece o plano, já é um desafio. Outras maratonas urbanas também podem ter desníveis consideráveis.

Foi assim que entendi que não devia me limitar a um ou dois percursos quase planos. Pelo contrário: vale acompanhar o ganho de elevação dos treinos e escolher caminhos variados, com diferentes desníveis. Treinar serve justamente para desenvolver habilidades diferentes.

Para manter a velocidade numa subida, é preciso encurtar a passada e tentar aumentar a cadência, mexendo as pernas mais depressa. Por outro lado, a subida está ali para todo mundo, não só para você. Todos enfrentam a mesma dificuldade. É uma oportunidade de ultrapassar quem não treinou essa habilidade.

Na descida, dá para ganhar uma bela velocidade. O principal é não cair. Adoro dar passadas enormes, pelo menos para os meus padrões, ladeira abaixo. Sinto que a gravidade trabalha a meu favor e que posso “roubar” um pouquinho. Cada passada me leva mais longe do que o normal. É hora de acelerar com passos largos.

Tênis

Ah, que assunto maravilhoso! Merece um livro inteiro. Os tênis são um fenômeno da cultura popular, a tentativa de criar o calçado mais confortável possível. Muita gente se expressa por meio deles. Existem milhões de modelos para todos os gostos.

Mas só uma parte, a dos tênis de corrida, se destina a esse uso esportivo. Mesmo nesse segmento, existe uma moda própria. Equipes de engenheiros, designers e especialistas em movimento desenvolvem modelos e experimentam materiais em busca do ideal. Os modelos de ponta mudam e alcançam novos patamares. Provavelmente, você encontrará um que leve em conta suas particularidades anatômicas e seu tipo de treino.

Para os corredores, escolher tênis é uma verdadeira obsessão, vivida com toda a paixão. Afinal, a escolha certa pode evitar lesões e ajudar muito nos resultados.

Nos grandes campeonatos e nas Olimpíadas, existe uma competição extraoficial: com quais tênis os atletas e as equipes venceram mais? É um quadro de medalhas das fabricantes, com líderes e novatos ambiciosos. Dá curiosidade saber o que seus atletas e equipes favoritos usam. É um universo inteiro de tênis.

Quanto às marcas, cada um escolhe a que preferir. Mas, em termos de função, cheguei a esta divisão mínima:

Tênis do dia a dia: os básicos, os cavalos de batalha. São os que você usa na maioria dos treinos e desgasta mais depressa. De preferência, simples e confiáveis, para asfalto ou cascalho, estáveis em diferentes superfícies.

Tênis compactos: para a academia e as viagens. Tenho um par cuja principal qualidade é a leveza e a facilidade de guardar na mala ou na mochila. Não exijo muito deles. O importante é transportar sem dificuldade e ter à mão quando precisar, mesmo com pouco espaço. Claro que na esteira dá para usar o tênis básico. Mas é bom ter esse par compacto para viagens e situações especiais.

Tênis de inverno: nos dias frios e nos caminhos com neve, um pouco mais de proteção ajuda. Não serão os mais rápidos e provavelmente pesarão mais, mas permitem continuar correndo. A sola precisa ter boa aderência para reduzir os escorregões. Não são tênis para bater recordes; são para manter a continuidade dos treinos.

Tênis impermeáveis: para chuva e trilhas. Precisam de uma camada que impeça a entrada de água e de travas fortes na sola, para correr em caminhos de bosque e terrenos difíceis.

Os melhores tênis de corrida: para competições e provas-teste. Podem custar mais, desde que sejam leves e ofereçam a melhor eficiência possível.

É para isso que os corredores compram os tênis com placa de carbono e aquela estrutura elástica que ajuda na propulsão. Eles têm uma vida útil limitada: conservam suas qualidades especiais durante determinada quilometragem. Mas permitem fazer suas corridas mais rápidas.

Quando comprei meu primeiro par de carbono, o vendedor avisou que a vida útil era de 200 km. Testei numa corrida de 10 km. Depois disso, passei a usá-lo só nas provas mais importantes. E, toda vez, bati um recorde pessoal.

Então, uns cinco pares diferentes são o suficiente para me sentir um corredor preparado. Daí para a frente, entram a expressão pessoal e as prioridades.

Todo mundo conhece a recomendação básica de tamanho: o tênis não pode apertar o pé de jeito nenhum. O ideal é que seja um pouco maior, cerca de meio número acima do calçado comum. Um erro na escolha, e você vai conhecer unhas machucadas e possíveis lesões.

Equipamento, parte 1

Para falar a verdade, correr exige muito pouca coisa. Um tênis simples, uma camiseta simples, uma calça simples, e pronto. Mas isso é o mínimo para viver. E qual seria o máximo? Parece que essa pergunta nunca terá uma resposta definitiva: sempre dá para inventar mais um acessório.

Já falamos dos tênis. Mas até eles têm acessórios: as talonheiras, por exemplo. São pequenos pedaços de borracha macia colocados sob a palmilha para suavizar o impacto no calcanhar. Coloquei um par nos meus tênis principais, que já tinham espuma React, e ficou tão confortável que logo esqueci delas. Depois de lavar os tênis, não as recoloquei. O treino seguinte foi bem mais doloroso. A gente se acostuma rápido ao que é bom. Além da sola macia, portanto, existe esse apoio separado. Também há separadores para os dedos, para evitar o atrito.

Dá para correr com meias comuns, claro, mas existem meias específicas. Algumas têm compressão; outras, acolchoamento para proteger a parte de cima do pé. Elas eliminam melhor a umidade, evitando que o pé fique abafado, e usam materiais pensados para prevenir bolhas. Há modelos com membrana, que deixam a umidade sair sem deixar a água de fora entrar. Outros apoiam o tendão de Aquiles ou o tornozelo, reforçam o calcanhar ou protegem os dedos. Portanto, podem ser úteis. As bem curtas funcionam no verão e na academia. Também existem modelos até o joelho, com compressão, e meias grossas e quentes para o inverno.

Mais acima, entram os canelitos de compressão, que envolvem as panturrilhas. Uma invenção maravilhosa, com um princípio parecido com o das faixas de suporte. Apertam bem a panturrilha e oferecem sustentação extra. Ao manter os músculos firmes, ajudam na circulação e na remoção do lactato. O resultado é menos cansaço, recuperação mais rápida, menos inchaço, menor risco de varizes e menor chance de espasmos e cãibras. Um milagre de corredor. Só não pode errar o tamanho. E tem um detalhe: se você compra um par no começo, pode perceber depois que ficou pequeno. As panturrilhas crescem! Dá para usar por baixo da calça ou com shorts.

Uma vez, tive uma lesão leve na perna esquerda e só consegui continuar correndo com o canelito. Passei a colocá-lo apenas nessa perna. Mas especialistas me explicaram que a compressão precisava ser igual nas duas, ou eu poderia acabar com outra lesão. Não quis testar. Agora uso sempre o par.

Confesso que, no início, tive vergonha de usar legging. Achei que ficaria esquisito. Depois me acostumei, e hoje é minha roupa favorita para correr. São calças esportivas justas, muito justas; algumas chegam a ser de compressão. Mas são aerodinâmicas, elásticas e confortáveis tanto para correr quanto para alongar. Normalmente, são a primeira camada, às vezes a única. Tenho leggings compridas, ótimas para primavera e outono, e modelos de três quartos, abaixo do joelho, que deixam as panturrilhas livres, bons para o verão ou a academia.

A legging comprime um pouco a coxa, ajudando a perceber os movimentos. Também costuma ter pequenos bolsos com fechamento, úteis para chaves, cartão e outras miudezas. Muitas vezes, o bolso fica atrás, bem no meio da cintura. É uma posição diferente da roupa comum, mas ótima para correr: não atrapalha nem fica roçando.

Muitas leggings têm zíper na parte de baixo da perna, útil para ventilar. Ou você pode fechar bem por cima das meias compridas. Existem modelos com uma camada de fleece para os dias frios. Muito práticos.

A pochete de corrida é ótima para celular, chaves e géis. Modelos grandes atrapalham, então quanto menor, melhor. Quem está começando costuma levar o telefone na mão para trocar a música, ver os resultados ou pausar o aplicativo. Mas isso altera o movimento dos braços e consome energia extra. Melhor se acostumar a guardá-lo na pochete.

Shorts de corrida são diferentes dos de boxe, natação e outros esportes. Não há tanto mistério: o principal são as costuras finas, para evitar atrito. Gosto dos modelos com duas camadas, uma externa e outra interna. A roupa de baixo também precisa ter costuras suaves, especialmente nas corridas longas.

Uma dica: sempre levo um cartão de visita num bolsinho da legging, do short ou da pochete, caso aconteça alguma coisa. Normalmente, corro sem documento de identidade no bolso, como qualquer pessoa sensata. Mas, se passar mal ou sofrer um acidente de trânsito, quero que alguém consiga me identificar e saiba para quem ligar. Afinal, os corredores parecem todos iguais!

Equipamento, parte 2

As lojas esportivas vendem golas tubulares leves, pequenos cachecóis em forma de tubo. As mais conhecidas são as Buff. Há uma infinidade delas: quentes, leves, de microfibra, refrescantes, para todos os gostos e situações. Também existem coleções com cidades, montanhas famosas, estampas e cores lisas. Quero percorrer o Caminho de Santiago, então comprei duas com o trajeto até Santiago de Compostela. São boas em qualquer estação: para proteger o pescoço e a respiração do frio, ou na cabeça, contra chuva e sol. E, claro, dá vontade de usá-las fora da corrida também.

Há óculos de sol específicos, viseiras e jaquetas quase sem peso, respiráveis, para a chuva, ótimas para levar em viagens. Existem blusas próprias para correr, moletons e modelos com capuz.

Vou falar das camisetas de corrida separadamente. Aqui, ficam as de manga longa, que também podem ter partes de compressão. Sua função principal é ventilar o corpo aquecido e afastar o suor. Infelizmente, nunca encontrei uma camiseta de manga longa de corrida que virasse minha favorita. Prefiro as justas, feitas para artes marciais. Não ficam roçando e são confortáveis na primavera e no outono.

Dizem que quem está acostumado às montanhas não sente menos frio por ser mais resistente, mas por saber se vestir. Faz todo o sentido. Em certos dias de inverno, parece impossível sair para correr: quem vai fazer exercício lá fora com esse tempo? Mas existem casacos acolchoados próprios para corrida, com mangas ou em forma de colete. São tão bonitos, com suas costuras e volumes, que dá vontade de sair só para desfilar.

Eu, pessoalmente, gosto de correr com um gorro esportivo leve, cobrindo as orelhas. Ajuda a regular a temperatura, segura os fones e evita preocupações com o cabelo. Me acostumei tanto que uso o ano inteiro, até no calor.

Os dedos das mãos esfriam antes de outras partes do corpo. Quando começa a sentir frio, o organismo vai economizando na circulação, priorizando o que considera mais importante. Nesse sentido, trata as extremidades, especialmente os dedos, como menos essenciais. Por isso, as luvas ajudam. Na primavera e no outono, uso modelos sem dedos, às vezes de crossfit. No inverno, passo às luvas completas.

Conforme o tempo, podemos e devemos combinar peças em camadas. Legging e camiseta de manga longa podem ficar junto à pele. Por cima, short e camiseta formam a segunda camada, suficiente para temperaturas mais baixas. Um moletom ou colete acolchoado acrescenta a terceira. A regra principal é sentir um pouquinho de frio ao sair de casa.

Quando o corpo aquecer durante o treino, você ficará confortável. Se exagerar no agasalho, vai suar demais e correr o risco de se resfriar.

Quanto às cores, prefiro as mais vivas possíveis, quase berrantes. Não é questão de estilo ou gosto pessoal. O importante é ser visto por motoristas e ciclistas, no escuro, na cidade ou fora dela. Laranja, rosa, verde-limão: essas cores elétricas ajudam a tornar o treino mais seguro.

A lista de roupas esportivas não acaba aí, mas já é bastante coisa. Por isso, reservei uma prateleira em casa para minhas camisetas, leggings, meias e outros tesouros. Aliás, são as roupas que mais vão para a máquina de lavar.

Percursos novos perto de casa

Correr sempre no mesmo lugar não é tão interessante. A pista oferece um piso confortável, sem desníveis, e você pode parar e voltar para casa a qualquer momento. Mas é um pouco monótona para quem tem curiosidade e gosta da vida.

Com o tempo, você muda um trecho, altera a distância, e uma rede de caminhos percorridos vai se formando ao redor de casa. Vai mais longe, entra em lugares desconhecidos, descobre pátios, ruas, pequenas praças, pontes e passagens. Correr permite olhar de outro jeito para a cidade que parecia tão familiar.

Logo encontrei percursos com os quais conseguia calcular, aproximadamente, mas com boa precisão, a distância e o tempo que passaria fora. E quantos lugares descobri! Pombais escondidos, um pequeno conjunto de antigos galpões transformados em lofts, oficinas, fachadas incomuns. Ao atravessar espaços que julgávamos conhecer, passamos a conhecê-los muito melhor.

Se há um parque perto de você, provavelmente conhece bem apenas os caminhos centrais, confortáveis e cheios de gente. Correndo nele, especialmente se for grande, vai descobrir novas vistas, trilhas inesperadas, entradas e saídas que nem imaginava, pássaros e animais em que nunca tinha reparado.

E, claro, novos ângulos de edifícios e paisagens já conhecidos.

Durante a corrida, o ambiente muda muito mais depressa. Você vê e percebe muito mais do que no dia a dia: mais árvores, casas, pombos, esquilos, canteiros e caminhos. É inevitável voltar com mais descobertas.

Quanto mais você corre, mais vê.

O parque e as estações

Houve uma época em que eu morava perto de um parque, e foi ali que fiz minhas primeiras corridas. O percurso começava com uma descida suave de cerca de um quilômetro, passava pelo palco do parque, acompanhando a encosta, fazia uma curva ampla para cruzar um riacho e seguia por um caminho de terra entre árvores e parquinhos. Depois se dividia, chegava a uma alameda larga e asfaltada, cheia de gente com carrinhos de bebê, e terminava num portão do outro lado. Ali eu voltava, refazia um trecho e entrava numa trilha estreita à beira do lago, que subia e descia bruscamente por umas dez elevações. Cruzava o riacho que alimentava o lago, chegava a uma área plana onde as pessoas passeavam com os cachorros e atravessava um bosque de bétulas até o início. Ao todo, cerca de 6 km. Por isso, a maioria das minhas corridas daquela época tinha mais ou menos 6 km: uma volta.

Da janela do apartamento, eu via o parque de cima e acompanhava suas mudanças ao longo do ano. Mas observar as estações lá de dentro era ainda mais gostoso. Depois que comecei a correr, passei a mergulhar naquele lugar com muito mais frequência. Era outra sensação.

Comecei no verão, na melhor época: o parque estava vivo, movimentado, cheio de sombra e com os caminhos secos. As folhas foram amarelando, minhas distâncias aumentaram, e pude acompanhar as transformações lentas da natureza. Era bonito correr entre folhas caindo e observar esquilos e patos. A cada treino, o parque ficava mais transparente, até que um dia eu mal consegui começar. A descida suave estava coberta por uma película de gelo perfeitamente lisa. Meus pés escorregavam. Depois de deslizar uns 20 ou 30 m, resolvi não tentar a sorte e fui comprar tênis de inverno. Assim chegaram meus primeiros Nike Lunarglide Flash impermeáveis, que pareciam grudar no gelo como no asfalto — pelo menos era a impressão que eu tinha. No dia seguinte, ultrapassei os pedestres que escorregavam, feliz da vida e quase sem reduzir a velocidade.

Quando a neve chegou e o frio apertou, as opções de trilha diminuíram. Nem sempre conseguia completar a volta até o início. Mas o bosque no inverno era lindíssimo e limpo. Correr com tênis coloridos pela neve fresca, debaixo de galhos cobertos de branco, tinha uma beleza especial. Eu acumulava quilômetros sabendo que não veria nada daquilo sem o hábito de correr.

Depois vinha a primavera: desviar das poças, ver antes dos outros as primeiras flores, as primeiras folhas, a primeira mamangava ou borboleta. Eu contava essas descobertas aos meus filhos e virava o primeiro mensageiro da estação.

Falamos muito em estar perto da natureza, mas andamos de carro depressa demais para perceber as estações, ou caminhamos tão pouco até o ponto de ônibus que não vemos os detalhes. Correr pelos parques, junto à água, atravessando praças e pátios longe de casa, amplia a visão do mundo de um jeito inesquecível.

Se você correr todos os dias, cada um deles ficará na memória e no histórico dos treinos.

Pontos turísticos

Quanto mais você corre, mais vê. Uma das grandes vantagens é poder conhecer lugares famosos e enxergá-los de ângulos inesperados.

Os organizadores de muitas maratonas urbanas desenham o percurso para mostrar o melhor da cidade. Em 21 ou 42 km, dá para conhecer a arquitetura do centro e de seus bairros mais bonitos. É uma experiência rara de turismo: ver tanta coisa de uma vez. As atrações de Londres, Berlim, Paris ou Barcelona, num único dia. Inesquecível!

Mas você também pode criar seu próprio passeio, único, e viver experiências que não se comparam a nada. São cinematográficas. Muitas vezes, correndo, tive a sensação de estar dentro de um filme, cercado por cenários incrivelmente realistas.

Uns dois anos antes do meu ano de corridas, viajei ao Tibete para fazer a kora, a volta ao redor do monte Kailash. Nosso pequeno grupo chegaria a Lhasa, a capital tibetana, via Guangzhou. De lá, seguiríamos de ônibus rumo ao norte, até Kailash. Mas Lhasa, por si só, já era fascinante. Uma cidade antiga sobre a qual eu tinha lido muito e onde sonhava conhecer o Palácio de Potala, residência do Dalai Lama. Aquele palácio de Sete anos no Tibete, com Brad Pitt.

Lhasa fica a aproximadamente 3.650 m de altitude. Para quem vem de lugares baixos, respirar ali é difícil. Se você tem tendência ao mal de altitude, ele pode chegar assim que desce do avião. A cabeça lateja, e bastam alguns passos para ficar cansado. Dá vontade de parar para recuperar o fôlego. No começo, os movimentos são lentos, como debaixo d’água, e a sensação lembra uma embriaguez.

Felizmente, o organismo sabe se adaptar relativamente rápido. No início, o ar rarefeito deixa o sangue mais espesso. O coração tem dificuldade de levá-lo até os capilares, e vem a fraqueza. Aos poucos, a composição bioquímica do sangue muda, e você se acostuma à nova realidade. Além disso, Lhasa está cheia de crianças, idosos e comerciantes vivendo normalmente. Você percebe que é possível viver ali. Basta aguentar um pouco, e as coisas se ajeitam.

Na primeira noite, a cabeça dói. É difícil dormir, os sons da rua parecem estranhos, os sonhos são inquietos, falta ar. Mesmo assim, é emocionante estar num lugar tão misterioso.

Por volta das 6 da manhã, calcei os tênis, conferi o mapa e saí ao encontro do Potala. A cidade ainda dormia, havia poucos carros, e eu corria por uma rua antiga imaginando as caravanas de iaques que tinham passado por ali. Na altitude, com o ar rarefeito, as cores pareciam muito mais vivas. O amarelo era mais amarelo do que à beira-mar, e o azul, incrivelmente mais azul.

Infelizmente, precisei parar muitas vezes e caminhar. A falta de ar era intensa. Encontrei um policial entediado e os primeiros trabalhadores apressados. Descobri que os tibetanos gostavam de ouvir música em caixas de som grandes: formavam rodinhas em volta delas, sentavam nos bancos com elas e pareciam passar o tempo todo gravando mensagens de voz no celular.

Não precisei me perder num labirinto de ruas. Cheguei ao Potala pela avenida principal e o vi iluminado pelo sol nascente. O palácio é extraordinário. Impressiona pensar que tamanha beleza foi construída naquela altitude, em meio a uma natureza tão escassa. Eu estava entre tibetanos apressados, feliz por ter chegado à entrada principal. Era uma realidade de cinema. Inacreditável.

Na volta, vi pequenas figuras de uniforme se reunindo diante de uma escola. Os pais as acompanhavam, davam um beijo de despedida e entregavam o café da manhã. Foi uma cena muito bonita.

Uma corridinha de 5 ou 6 km, e voltei ao hotel antes do café da manhã. Já tinha visto o Potala sob uma luz incomum, além de cenas do cotidiano, policiais e comerciantes, enquanto meus companheiros escovavam os dentes num quarto de hotel igual a tantos outros. Eu me sentia um descobridor, aquele que ia na frente explorar o terreno. Só uma corrida? Sim, mas também um sabor especial da vida, que só a corrida me permitia sentir.

Naquele dia, visitamos o Potala com um guia, entramos no palácio e subimos às muralhas. Foi incrível. Mas, sem a visão da manhã, a experiência teria ficado incompleta. E aquela lembrança era só minha!