Correr no inverno
No inverno, quem quer continuar correndo ao ar livre precisa se acostumar com o frio e, em alguns dias, com a neve e o gelo. Nos percursos mais altos, eles fazem parte do caminho.
Tenho um par de tênis Reebok próprio para isso. Com ele, não tenho medo de correr na neve acumulada, porque meus pés continuam secos. Naquele ano de corridas, comprei também tênis Salomon e Nike ACG — All Conditions Gear. Eles também são impermeáveis.
Além disso, gosto de correr de manhã. Se nevou durante a noite, acabo correndo no escuro por calçadas que ainda não foram limpas. Mas é uma questão de hábito, não há nada de assustador nisso.
Quando o gelo e a neve tomam conta dos percursos, não dá para esperar grandes velocidades ao ar livre. Ou a gente viaja para um lugar mais quente, ou aceita correr mais devagar no inverno. Para mim, tudo bem: corro devagar. Até porque boa parte das provas do meu calendário só começa em abril.
Quando saio pelas ruas frias da cidade, me sinto Humano. Aquele ser capaz de desafiar a natureza sem se deixar intimidar. Sinto que não sou uma planta adormecida no inverno nem um urso em hibernação, mas uma pessoa que pode decidir o que fazer, mesmo no frio. Não preciso de sol para me sentir seguro: meu sol está aqui dentro. É o motor que me leva sobre o gelo e através da neve acumulada, meu motor, criando uma pequena ilha de calor neste mundo frio. E esse calor basta. Enfim, sinto orgulho da teimosia humana, dessa capacidade de viver feliz em praticamente qualquer condição. É um desafio de vontade e resistência, e fico feliz por estar dando conta.
No inverno, o equipamento importa; não tem jeito. É preciso acompanhar a temperatura lá fora e entender bem como o corpo vai reagir. Dá para usar uma segunda pele térmica por baixo da roupa esportiva. Gorro e tênis impermeáveis são indispensáveis. Eu uso aquelas golas tubulares da Buff. Nos dias mais frios, a gola ajuda a proteger o rosto do ar gelado. Puxo o tecido até cobrir o nariz. Nos dias de frio mais intenso, ele às vezes chega a endurecer, e pode aparecer uma camada fininha de gelo nas sobrancelhas e nos cílios. Rende fotos lindas.
As marcas de equipamento de corrida têm propostas diferentes para o vestuário de inverno. Algumas fazem conjuntos para determinada temperatura; outras trabalham com camadas, peças que podem ser combinadas ou usadas separadamente. A Nike usa esse sistema de camadas, e eu gosto muito. Há a roupa de baixo, os conjuntos de fleece e os coletes adicionais, leves ou acolchoados. Dependendo da temperatura, dá para vestir 2, 3 ou 4 camadas e ficar bastante confortável.
O rosto não sente tanto frio. Normalmente, andamos com ele descoberto, então já estamos acostumados a suportar temperaturas baixas. As extremidades, onde a circulação é menor, costumam sentir mais frio. Por isso, usar duas camadas de luvas não é uma ideia tão ruim.
Correr no inverno traz um risco considerável de cair, escorregar ou torcer o pé. Na rua, você acaba prestando mais atenção em proteger as pernas do que na velocidade e nos resultados. Até um bom tênis pode escorregar. Portanto, o principal objetivo das corridas de inverno é não se machucar.
Corredores lendários não treinam apenas em superfícies perfeitas, mas em percursos difíceis, que oferecem mais resistência. Em terrenos lamacentos, pegajosos, onde custa tirar os pés do chão. Isso desenvolve a coordenação e a força das pernas. Então, enquanto houver neve, dá para aproveitar e treinar em percursos difíceis. Quando chegar a hora de mostrar bons resultados, tudo vai parecer mais fácil.
Enfim, o inverno é a época perfeita para correr.
Horário de treino
Li em algum lugar que o melhor é treinar no horário em que acontecerão as competições de verdade. Faz sentido. A maioria das provas de que participei começa de manhã e, para ser sincero, eu também prefiro correr antes do café da manhã.
É ótimo correr por ruas vazias e ver a cidade acordando. Ainda há poucos carros e pedestres, e você não atrapalha ninguém. Além disso, começa o dia sabendo que já fez alguma coisa, sem ficar com o treino pendente pelo resto do dia.
Quando chega o calor do verão, correr fica difícil. Você perde muito líquido e corre o risco de ter uma insolação. Nunca cheguei a esse ponto, mas, no verão, procuro sair o mais cedo possível, antes que o sol passe a jogar contra mim.
À noite, normalmente já estou cansado, por isso tento deixar poucos treinos para esse horário. Além disso, fico o tempo todo pensando que o dia está passando e ainda tenho uma dívida com ele. Correr todos os dias virou um hábito e, enquanto não corri, parece que o dia está incompleto. É difícil passar o dia inteiro com essa sensação. Só depois da corrida vem o alívio: treino pago. Amanhã tem outra prestação.
Por outro lado, muitos amigos meus gostam justamente de correr à noite, encerrando um dia cheio. Depois, tomam banho, assistem às séries favoritas e vão dormir. Entendo perfeitamente. Por algum motivo, à noite costumo correr mais rápido do que de manhã. Portanto, o treino noturno tem suas vantagens.
De qualquer forma, o importante é que o treino aconteça. De manhã, à tarde ou à noite, é uma questão de gosto. Às vezes, há até provas noturnas. Essas são lindas!
Treinar na esteira
No geral, é claro que é melhor correr em chão de verdade, no asfalto ou numa pista de atletismo.
Mas existem situações especiais. Para não se preocupar com a roupa, com as condições do gelo ou com a limpeza das calçadas, dá para correr na esteira da academia durante o inverno. Pensando bem, não é tão ruim. Você ajusta a velocidade desejada, coloca uma música e vai atrás dos quilômetros que faltam.
Uma grande vantagem da academia é não precisar vigiar o ambiente ao redor. Não há semáforos para parar, buracos, meios-fios, cachorros ou gente de patinete. Você corre de maneira uniforme, numa velocidade mais ou menos constante, e os dados da esteira são confiáveis. Sabe se correu 2 ou 4 km, sabe exatamente quanto tempo passou e pode parar quando quiser. Então dá para correr sem o celular.
E, se a intenção era correr 10 km, mas só saíram 5 — acontece —, não precisa chamar um táxi para voltar para casa. É só parar o aparelho e ir para o vestiário.
Claro que a esteira não substitui a corrida de verdade, no chão, mas serve muito bem para aquelas situações especiais de mau tempo.
O que mais gosto na esteira é poder mudar a inclinação. O relevo importa para qualquer corredor, porque correr em terreno ondulado é muito diferente de correr numa superfície perfeitamente plana. Para muita gente, é um grande desafio. Se você costuma treinar no plano e depois vai a uma prova com subidas, vai correr mais devagar e se cansar antes. Por isso, treinar subida é uma habilidade importante para quem quer correr em qualquer terreno. Nesse sentido, variar a inclinação da esteira ajuda a desenvolver essa capacidade.
Música
Depois de passar horas correndo, pode bater um pouco de tédio. Aí dá vontade de colocar os fones e entrar em outro mundo.
Escuto músicas variadas e audiolivros. Tenho uma assinatura do Apple Music e ouço diferentes seleções por lá. Às vezes, são playlists prontas, como as da série Nike Training. Outras, eu mesmo monto. Tenho, por exemplo, Fast Run, Slow Run, Marathon List e algumas outras.
Minha Fast Run me dá vontade de me superar. Nem todas as músicas têm um ritmo acelerado. Mas, quando ouço uma melodia de que gosto, penso que não posso decepcioná-la e tento acelerar, como se estivesse dando uma força para o artista. A alma canta, e as pernas devoram quilômetros.
A Slow Run tem músicas bem mais tranquilas. Não dá vontade de acelerar, mas ajuda a manter o sossego, a correr sorrindo. Para percorrer uma distância longa com a frequência cardíaca baixa, funciona muito bem.
Mais tarde, descobri as listas das músicas mais ouvidas de diferentes países e grandes cidades. Foi uma descoberta e tanto! Percebi que, em muitas cidades, quase não aparecia música local, só sucessos internacionais, geralmente americanos ou europeus. Felizmente, não era assim em todas. Adorei as listas de cidades latino-americanas — Bogotá, São Paulo e Lima — e africanas — Nairóbi, Lagos e Cidade do Cabo. São Paulo trazia uma familiaridade gostosa; as outras me apresentavam ritmos e sonoridades inesperados. Tudo isso dava vontade de correr. Se não gostar das listas por cidade, dá para ouvir as de cada país.
É uma pequena viagem sonora. Você escolhe um país que gostaria de visitar, ou se lembra de uma viagem que já fez, e ouve a playlist de um canto distante do planeta. Eu raramente escutava as listas da Alemanha, da França ou da Polônia; tinha mais curiosidade por lugares menos familiares, mas havia de tudo. Quando voltava da corrida, dizia à minha mulher que naquele dia tinha corrido ao som da Colômbia, do Paraguai, do Quênia ou do Japão. É muito bom, muda o ritmo habitual da vida. E é ótimo ouvir músicas que não sejam em inglês ou português, mas em suaíli ou marata.
Claro que recomendo as listas do Quênia: afinal, é de lá que vêm alguns dos melhores corredores do mundo. Gosto de pensar que a música que eles ouvem tem alguma influência nos resultados. As músicas de Nairóbi são bem animadas, com um ritmo ótimo.
Uma lista diferente de todas as outras é a de Botsuana. É um país do sul da África, com pouquíssima corrupção, que passou pela independência sem mergulhar em guerras civis. Sua economia cresce a um bom ritmo, e a sociedade é apresentada como um exemplo de sucesso africano. Fiquei curioso para saber o que essa sociedade escutava.
Quando você ouve as listas de vários países, percebe que ali vivem pessoas diferentes, com gostos diferentes. Uns gostam de músicas melodiosas; outros, de músicas cheias de energia, rock, pop, techno. Estilos diferentes para pessoas diferentes. Mas em Botsuana parecia ser outra história: era como se todo mundo fosse igual e tivesse o mesmo gosto. A lista parecia uma playlist montada por um único DJ, com preferências musicais muito específicas. Quase não se percebia a passagem de uma faixa para outra. Musicalmente, todo mundo no planeta é diferente; só em Botsuana as pessoas são iguais. Correr ao som daquelas músicas é maravilhoso!
É assim que escuto listas do mundo inteiro. Quando encontro uma música de que gosto, adiciono à minha própria playlist.
Audiolivros
Quando o assunto é livro, obras muito densas sobre negócios não funcionam para mim. Afinal, durante a corrida, a concentração não é a mesma: preciso prestar atenção ao que está ao redor, aos carros e aos buracos, para não tropeçar. Fica difícil absorver ideias complexas, muita coisa se perde. Ouvi principalmente histórias de empresas de sucesso, como Netflix, Goldman Sachs e outras. Também Nassim Taleb, com seu A lógica do cisne negro.
Já a divulgação científica mais leve funciona muito bem. Ouvi um excelente livro, Darwin Comes to Town — em tradução livre, “Darwin vem à cidade” —, sobre como as espécies se adaptam ao ambiente urbano, evoluem e encontram novos nichos. Perfeito para correr pela cidade.
Gostei de Armas, germes e aço, sobre por que algumas sociedades, principalmente da Europa e da Ásia, se tornaram mais bem-sucedidas e colonizaram a África, a América e a Austrália, e não o contrário. Também ouvia podcasts literários, programas de história e ficção científica. Minhas grandes descobertas foram a série Hyperion, de Dan Simmons, e Martin Eden, de Jack London. Ouvi toda a obra de Viktor Pelevin e descobri, com espanto, a incrível ficção científica chinesa de Liu Cixin. Mesmo que não tivesse conquistado mais nada, só isso já teria feito a corrida valer a pena.
Na verdade, não dá para correr muito rápido ouvindo um audiolivro. Esse tipo de companhia sonora não combina com velocidade, mas com uma corrida constante e sem pressa. E isso é ótimo. De quebra, amplia os horizontes de um jeito impressionante.
Antes de assistir a Duna, decidi ouvir o audiolivro que deu origem ao filme. Como corri bastante naquela semana, terminei a tempo. Foi uma decisão certeira: sem o livro, muita coisa teria ficado confusa. Olha só: graças à corrida, até assisto melhor aos filmes.
Vídeo
Sim, dá para assistir a filmes e séries enquanto corre. Mas não na rua, claro.
Na academia, você corre num aparelho que controla a velocidade e a distância, então sabe exatamente quanto correu e como foi o treino. Não precisa ocupar o celular com as estatísticas.
Coloco o telefone no apoio da esteira, bem à minha frente, conecto os fones e dou play em alguma coisa na Netflix. Uma corrida de 8 a 10 km, por exemplo, costuma durar mais ou menos um episódio. Assim, dá para acompanhar o que anda acontecendo na cultura e, ao mesmo tempo, fazer exercício.
O treino “pente”
Uma vez, li Do que eu falo quando eu falo de corrida, de Haruki Murakami. Não é um manual de treinamento; é uma obra literária, autobiográfica, em que ele conta muitas histórias ligadas à corrida. Embora não seja propriamente um livro de esporte, teve uma influência enorme na popularização da corrida amadora. Num trecho, Murakami diz que se orgulha de ser alguém que não para. Ou seja, corre a distância inteira sem parar, seja qual for. Bem ao estilo japonês. Aliás, os japoneses são excelentes corredores, donos de muitos recordes. Talvez justamente por essa característica de não parar.
Infelizmente, eu não consigo fazer assim. Numa prova oficial, até dá para não parar. Mas, no treino, por que não? Se o corpo pede, vale escutar.
No aplicativo da Garmin, dá para acompanhar como a velocidade varia ao longo da corrida e consultar o ritmo médio, em minutos por quilômetro ou por milha. Também é possível ver a velocidade de cada minuto. Conversando com amigos sobre os treinos e comparando resultados, percebi que eles costumam tentar manter um ritmo constante. Tudo bem, é uma possibilidade. Mas não funciona para mim.
Muitas vezes — nem sempre, mas muitas — corro num ritmo irregular. Vou como consigo, pelo tempo que consigo, num ritmo confortável. Quando sinto que os movimentos perdem a precisão ou que estou ficando sem fôlego, passo a caminhar ou paro. Assim que recupero o ar, volto a correr. E sigo assim até cumprir a distância que planejei.
Quando analiso a corrida no aplicativo da Garmin, essas paradas e acelerações ficam muito claras. Nos gráficos dos meus amigos, aparecem longos trechos de corrida seguidos de uma redução de velocidade. O meu desenha um “pente”: um monte de dentes com picos de velocidade, separados por quedas quase até zero.
Acho que esse ritmo funciona para quem ainda não está bem treinado. Você consegue terminar a distância, sem abandonar. E, se combinou isso consigo mesmo antes de sair, a estratégia faz parte do plano. Não precisa se culpar por fraqueza: era exatamente isso que estava previsto.
De um jeito ou de outro, a corrida continua melhorando a condição física. Com essas pausas, consigo percorrer distâncias maiores, mantendo uma frequência cardíaca média mais baixa e guardando energia para os trechos “rápidos”. Os batimentos se estabilizam, o corpo dá conta do esforço e manda o sinal: pronto, estou preparado, vamos em frente. E você volta a correr.
Adoro esses “pentes”. Não é treino intervalado, em que você se obriga a correr determinada distância em alta velocidade. São pequenos trechos de corrida separados por pausas curtas, que ajudam a entrar no ritmo. Só que são muitos no mesmo treino.