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Janeiro

O desafio de 365 dias, a regularidade e as primeiras tentativas de transformar a corrida numa rotina.

15 min · 2.956 palavras

O desafio: 365 dias de corrida

Um dia, no fim de dezembro, vi no Instagram um post do meu amigo Tony. Ele fazia um balanço do ano e escreveu que correr todos os dias era ótimo. Pensei: aí está um herói de verdade. Não um personagem mítico de revista esportiva, mas uma pessoa de carne e osso, empresário, pai de família. E tinha conseguido correr todos os dias. No excuses, sem moleza! Que cara sensacional! Eu também quero!

No dia seguinte, 1º de janeiro, comecei meu desafio: 365 dias de corrida. Não foi uma decisão muito pensada. Foi mais um impulso. Li o post à noite e, no dia seguinte, saí para correr. Até porque os tênis eu já tinha.

Naquele ano, corri todos os dias. Confesso que nem todas as corridas foram motivo de orgulho. Fiquei doente algumas vezes, e sair para correr com febre não era lá muito confortável. Por isso, houve dias em que corri só 300 a 600 m. Uma mera formalidade, claro. Mas sem interromper a sequência.

Uma vez, tive uma viagem de avião que durou um dia inteiro e precisei correr de um lado para o outro no aeroporto de Amsterdã, onde fazia conexão. Sem tênis de corrida, usando botas pesadas de montanhismo. A velocidade era ridícula, mas a sequência continuava!

Em setembro daquele ano, corri a Maratona de Colmar em menos de 4 horas. Minhas pernas doíam infernalmente, eu mal conseguia andar e subir escadas era um sofrimento. Correr no dia seguinte parecia quase impensável. Então, por alguns dias, voltei às distâncias minúsculas. Mas, o que importa: sem interromper a sequência.

Tenho que admitir que, em dezembro, eu estava um bagaço. Estava de saco cheio. Já tinha realizado todas as minhas ambições na corrida e continuava correndo um pouquinho, às vezes só de maneira simbólica, para terminar aquele desafio.

E consegui. No dia 31 de dezembro, gravei um vídeo contando que tinha corrido 365 dias e estava morto de cansaço. O post ganhou um monte de curtidas, e fui ao Instagram agradecer a Tony por ter me motivado e inspirado.

Encontrei aquele post. E, em 31 de dezembro, no último dia do meu desafio, finalmente li até o fim...

Foi aí que caiu a ficha: ele tinha ESTABELECIDO UMA META para 365 dias — acumular determinada quilometragem ao longo do ano, e não correr todos os dias!

No começo de janeiro, Tony tinha corrido seu “quilômetro de metas”, pensado na vida e definido uma quilometragem para o ano. E cumpriu a meta, embora tivesse corrido em muito menos de 365 dias. Houve resfriados, festas da empresa, cansaço e todo tipo de imprevisto. Motivos, enfim. Mas ele cumpriu cada quilômetro que tinha prometido a si mesmo.

Foi engraçado. Vocês precisavam ter visto minha cara naquele momento!

Por outro lado, fico muito feliz por não ter lido o post até o fim naquela primeira vez e por ter passado o ano inteiro na feliz ilusão de estar acompanhando meu amigo. Não tive a tentação de abrir uma exceção. Logo me acostumei a correr todos os dias. Correr virou parte da minha rotina. Foi realmente difícil não sair para correr no dia 1º de janeiro do ano seguinte. Tive que me esforçar para simplesmente ficar em casa. Dá para imaginar? Às vezes, é preciso ter força de vontade para não correr.

De qualquer forma, depois daquele primeiro desafio, eu já tinha essa experiência. Sabia que era capaz de correr todos os dias. Literalmente.

O relógio esportivo do maratonista

No Natal seguinte, minha mulher me surpreendeu com um Garmin Forerunner. Não era o modelo mais sofisticado: um relógio esportivo relativamente simples, mas bastante avançado, que coletava um monte de dados sobre os processos extraordinários do meu maravilhoso organismo.

Ao contrário do Apple Watch que eu tinha na época, ele não ficava sem bateria no fim do dia: a carga durava uns 3 ou 4 dias. Dava para dormir com ele e analisar o sono. Isso me conquistou.

Antes, eu corria com o Apple Watch, mas achava difícil acompanhar a frequência cardíaca. Na prática, não acompanhava. Uma pena. Devia ter acompanhado.

Comecei a observar meus batimentos, quanta energia tinha recuperado durante a noite e meu nível de estresse. Além disso, o relógio fornecia estatísticas muito precisas sobre a corrida. Um fascinante processo de autoconhecimento.

Quando coloquei o relógio no pulso, pensei: com uma coisa dessas, dá para voltar a correr todos os dias.

No ano seguinte ao primeiro desafio, eu tinha continuado a correr, claro, mas sem tanta regularidade. No ano de corrida diária, percorri 1.600 km. No ano seguinte, só consegui 577 km em 90 corridas. Apenas 90 corridas no ano inteiro! Isso, claro, afetou meus resultados. Meu tempo na maratona piorou de 3 horas e 56 minutos para 4 horas e 12 minutos. Foi difícil, tive que me arrastar para continuar e, mesmo assim, terminei mais devagar.

E, para falar a verdade, eu estava com saudade de correr. Por isso, foi ótimo mergulhar outra vez no Desafio 365. Estabelecer metas ambiciosas é uma forma de sacudir a poeira. Com meu novo relógio de corrida, decidi repetir o ano de corridas, mas com mais inteligência. Afinal, agora eu tinha uma ferramenta nova.

Regularidade

A descoberta mais interessante que fiz na corrida — e talvez a mais discutível — foi a prática de correr todos os dias.

Sempre que leio artigos sobre corrida, vejo a ênfase na importância das pausas, de dar ao corpo tempo para se recuperar. E não há como discordar: é claro que precisamos descansar. Ignorar isso pode prejudicar a saúde. Até os campeões — principalmente eles — reservam dias para o descanso.

Por outro lado, cada um joga com as cartas que a natureza lhe deu. Eu me conheço, conheço meu jeito. Sei que sou um pouco preguiçoso e não muito organizado. Se houver uma oportunidade de enrolar, com certeza vou encontrar argumentos para aproveitá-la. Será que não dá para passar o treino para outro dia? Ou descansar um pouquinho mais nesta semana, ou na próxima? Me confundir com o calendário? Com certeza vou encontrar uma justificativa para furar a programação.

Quando era mais novo, tentei várias vezes acordar cedo para fazer exercício — ou estudar idiomas, ou trabalhar. Eu dizia a mim mesmo: dou minha palavra, amanhã vou acordar disposto, cheio de energia, serei a própria força de vontade em pessoa e vou cuidar de mim. Vou emagrecer, ficar flexível e forte, sair para correr, fazer barra, ver o dia nascer no parque...

Mas, quando o despertador toca às 6 da manhã, o cérebro acorda e encontra argumentos razoáveis: na verdade, fui dormir tarde; dormir 8 horas por noite faz bem; nem preciso tanto assim desse treino, estou em boa forma; posso treinar à noite. Aliás, é melhor começar na segunda-feira. Vocês sabem como é.

Foi assim que o Poder da Razão venceu minha Força de Vontade inúmeras vezes. Sim, sou um ser racional, e isso soa muito bonito. Fazer o quê?

Mas também sei que sou teimoso pra caramba. No Desafio 365, perder um único treino significaria fracassar no projeto inteiro. Ao mesmo tempo, não existe obrigação de correr 10 km, de sair de manhã cedo ou de correr rápido. Nada disso. Pode ser devagar, pode ser pouco, pode ser a qualquer hora. O importante é a regularidade.

Sempre dá para encontrar pelo menos 10 minutos no dia, desde que a perna não esteja quebrada — um braço quebrado, aliás, não impede a corrida; você só vai correr mais devagar. Além disso, eu já tinha passado um ano correndo todos os dias e estava confiante de que poderia repetir. O tempo passou, as partes ruins ficaram para trás, e eu só lembrava que tinha sido divertido. De quebra, numa conversa, dá para soltar um “eu corro todos os dias”. Olha só que sujeito!

Foi assim que resolvi meu problema com a regularidade dos treinos. Simplesmente corro todos os dias. Nem todos são motivo de orgulho, mas, se alguém perguntar “em que dias você corre?”, posso responder sem dificuldade: corro todos os dias. Qualquer dia do meu ano de corridas.

Não é uma programação simples?

A mais simples que existe. Não dá para esquecer nem se confundir.

É. Muito. Simples.

Muito.

O primeiro mês

Corredores experientes dizem, com toda a sinceridade, que correr não é difícil. A corrida é quase o esporte mais simples e democrático que existe. Não precisa de praticamente nada: é só calçar um tênis, vestir uma roupa de ginástica e sair correndo. Todo mundo tem um tênis e alguma roupa para fazer exercício! Não é preciso equipamento complicado, como na musculação. Dá para correr sem treinador, não é necessária uma pista especial, como no hóquei, nem um campo ou uma quadra, como no golfe, no futebol ou no vôlei. Nem companhia é necessária, como no tênis. E é de graça!

Você pode correr sozinho, em qualquer parque ou simplesmente pelas ruas. Em qualquer cidade, em qualquer tipo de piso e a qualquer hora. Sim, para atingir resultados de alto nível, são necessários equipamentos, calçados específicos e um treinador. Mas, para correr por conta própria, por prazer, nada disso é indispensável. Os corredores experientes acreditam nisso e não estão mentindo. Se fossem ligados a um detector de mentiras, ele provavelmente confirmaria que estão sendo sinceros.

É, parece ótimo. Mas não é bem assim.

É que esses corredores já começaram e já amam o esporte. A maioria das pessoas, porém, odeia correr. Porque não sente prazer nenhum. Sente os músculos doerem, falta de ar, bolhas nos pés. É difícil respirar, estão encharcadas de suor, fedendo, humilhadas pela própria lentidão, desanimadas ao perceber como têm pouca resistência. E aqueles corredores experientes, cheios de disposição, dão nos nervos. Depois de algumas sessões de sofrimento e humilhação, a corrida é riscada da vida até a próxima tentativa.

Isso também faz todo o sentido.

Correr é uma atividade física intensa. A primeira corrida talvez seja mais intensa do que o primeiro treino com halteres. O corpo recebe uma carga inesperada e se rende: não está pronto para aquilo e não consegue dar conta de imediato. Daí vêm a falta de ar, as dores e o prazer absolutamente zero.

Mas eu sei que isso vai mudar. O prazer de correr vai aparecer, assim como a alegria das conquistas. Por enquanto, basta regularidade. Não é preciso bancar o herói. É preciso ser constante.

Mesmo com uma boa experiência de corrida, não foi fácil voltar a treinar regularmente. Mas eu já sabia que aquilo era muito passageiro e que todas as sensações ruins logo iriam embora. Todas mesmo.

Comecei com distâncias de 2 ou 3 km, alternando frequentemente com caminhada, e minha velocidade média era uma piada. Os músculos começaram a doer. Desde o primeiro dia, uma voz interior sussurrava que aquela ideia era uma bobagem: dava para correr bem sem correr todos os dias, então não custava fazer uma pausinha.

Mas tudo bem. Eu afastava esses pensamentos porque já sabia que eles apareceriam e que conseguiria lidar com eles. Aos poucos, fui entrando no ritmo e sentindo que podia correr mais longe e por mais tempo.

Treinador pessoal e alternativas

Em princípio, treinar com um profissional deveria ajudar. Mas minha experiência pessoal não foi boa. Quando treinei com instrutores — na musculação ou na ioga —, a coisa logo acabava em lesão e numa longa recuperação. Por isso, infelizmente, ainda fico com um pé atrás quando o assunto é treinar com um profissional.

Talvez isso aconteça porque, ao seguir as orientações de um treinador, você acaba transferindo a ele a responsabilidade pelas decisões. Só que é o seu corpo que sofre os efeitos do treino. Portanto, a responsabilidade também precisa continuar sendo sua. Transferi-la, nesse caso, é uma ilusão. É como tentar aprender a dirigir olhando o instrutor, em vez de sentar ao volante.

Ainda assim, alguns amigos meus treinam com profissionais, e vale mencionar isso. Muita gente gosta desse formato porque o treinador motiva, responde a perguntas e estabelece metas. Mas eu, pessoalmente, discordo com muita frequência das recomendações que ouço. Acho que preciso escutar meu corpo, analisar meus resultados e ler artigos, blogs e livros sobre treinamento para entender o que estou fazendo.

Meus amigos que têm treinador costumam fazer esse acompanhamento online. Ou seja, existe alguém, em algum lugar, que entende de corrida. Essa pessoa recebe um valor relativamente pequeno pelas orientações, monta seu programa e acompanha sua execução. Pode fazer isso por um aplicativo ou pela sua conta no Garmin Connect, por exemplo. Responde às perguntas e, quando você não tem com quem conversar sobre as dificuldades ou alegrias da corrida, está ali para ouvir e ajudar. Se você prometeu fazer alguma coisa ao treinador, fica sem graça de decepcioná-lo. Então acaba cumprindo.

Mas eu, como um introvertido exemplar, me viro sem treinador.

Hoje existem muitos aplicativos, e prefiro treinar com eles — embora também não siga tudo o que dizem. Eles me dão referências, e isso basta. Não só para a corrida, mas também para a ioga, os treinos de academia, a alimentação, a respiração e por aí vai. Para mim, é suficiente.

Plano de treinos

Então, não tenho treinador e ninguém vai montar meu plano de treinos. Eu também não sei montar um. Por isso, não fiquei inventando um plano sem sentido. Além do mais, provavelmente não conseguiria segui-lo. Para que essa hipocrisia?

Por essas razões, no primeiro mês do meu ano de corridas, me concentrei apenas na regularidade e no registro dos treinos, sem plano nenhum. Para começar, não era tão ruim. Eu sabia que estava na fase de criar um hábito. Portanto, o foco principal não era o resultado, a velocidade, a distância ou a sensação física. Eu só prestava atenção à regularidade.

Dizem que, para criar um hábito, é preciso repetir uma novidade 21 vezes, e depois ela vira rotina. Talvez seja assim; é melhor acreditar. Mas, se você decidiu fazer alguma coisa todos os dias, de um jeito ou de outro o hábito vai aparecer.

Além das corridas diárias, eu me pesava todos os dias e anotava os resultados — isso é importante. Quero dizer que realmente subia na balança todas as manhãs. Como na corrida, não tinha nenhuma meta específica nem um plano deliberado para emagrecer. Só mantinha o registro.

A diferença de peso entre segunda e terça-feira é pequena. Dá para dizer que é imperceptível. Mas isso cria um hábito e faz você prestar atenção ao próprio peso. Eu não fazia nada para mudá-lo; só acompanhava, no sentido de anotar. O peso mudou. Só precisou de uns dois meses para isso acontecer.

Aplicativos

Meu principal aplicativo de corrida era o NRC, Nike Run Club. A Nike tinha uma grande comunidade de corredores. No aplicativo, eu encontrava pessoas que conhecia na vida real e comparava nossos resultados. Depois de adicioná-las, via minha posição no ranking semanal e mensal do grupo. Como não eram muitas, também adicionava corredores de vários países. Na minha lista havia alemães, americanos, japoneses, mexicanos e brasileiros. Era ótimo: eu corria bem cedo e saía na frente de vários amigos. Depois a manhã chegava às Américas, e eles iam me alcançando e ultrapassando. Dava até vontade de fazer um treino à noite para segurar a posição no ranking.

Normalmente, eu ficava entre os dez primeiros no ranking semanal ou mensal, mas, no meu ano de corridas, muitas vezes terminei em primeiro. Não conheço pessoalmente a maioria desses amigos virtuais, então posso adicioná-los ou removê-los sem grandes crises de consciência. Montei um grupo em que a diferença entre nós não era tão grande. Se alguém corre uma quantidade inalcançável de quilômetros, isso só desanima. Se corre muito menos, você fica todo orgulhoso, mas se afirmar à custa dos mais fracos não é legal e não ajuda a evoluir. Por isso, vale escolher amigos que você consiga ultrapassar no ranking, desde que precise se esforçar para isso. Esse é o grupo ideal.

O aplicativo permitia participar de desafios: correr 50 ou 100 km até determinada data, por exemplo, ou participar de corridas virtuais beneficentes. Em uma delas, a Nike prometia doar a uma instituição um valor proporcional aos quilômetros que você corresse naquele dia. Claro que tratei de correr mais.

Também podia criar meus próprios desafios de distância, e havia corridas guiadas em áudio por celebridades. Era bacana. O Nike Run Club talvez oferecesse menos estatísticas que outros aplicativos, como Strava, adidas Running — o antigo Runtastic —, Garmin, Under Armour e outros. Mas, para mim, bastava. Eu me sentia parte da comunidade Nike.

Também gostava das corridas virtuais: os 5 km de domingo, Just Do It on Sunday, e outros eventos específicos. O aplicativo trazia orientações de treino, planos, dicas de alimentação e outras coisas que ajudavam e motivavam.

Havia um feed próprio, o Feed Nike, em que dava para compartilhar fotos das corridas com adesivos bonitinhos da marca. Era um verdadeiro diário de corrida.

Depois do treino, apareciam o percurso e o mapa de onde eu tinha corrido. Havia um calendário de corridas: dava para matar a saudade olhando os lugares por onde tinha passado e quanto tinha corrido em cada um. Na academia, também registrava os treinos na esteira. No começo, o aplicativo errava bastante a distância, mas foi melhorando com o tempo.

Além disso, o NRC me dava conquistas. Eram distintivos por determinados resultados ou por correr em datas especiais. Por exemplo: no Ano-Novo, no meu aniversário, no Ano-Novo Chinês, em 14 de fevereiro ou no feriado mexicano de Cinco de Mayo.

Também ganhava distintivos por treinar 3, 5 ou 7 vezes na semana, ou por correr mais de 50 ou 100 km. Enfim, o NRC vivia me elogiando, e isso era gostoso.

Correndo todos os dias, eu podia completar a coleção de conquistas do ano inteiro.